O Fosso
A Taverna do Fosso era um palacete no centro de Vindar. A região contava, também com um galpão, usado para reuniões, a prefeitura e um pequeno templo fechado há décadas. A região servia de apoio para os agrimensores do rei. Curvado sobre a mesa, Gideon saboreava um caneco da cerveja vermelha. Na posição em que estava, via, em uma linha reta entre mesas, cadeiras, clientes e pilastras, a porta dos fundos. E, do lado de fora, a borda do poço que batizava o estabelecimento. O banjo de Tom tocava nas proximidades. Era a água, diziam. A água garantia o sabor da cerveja e da comida. "Água não tem gosto", rebatia Gideon com seus demônios interiores. Os poucos empregados entravam e saíam de tempos em tempos, atarefados. De qualquer forma, o dono, Erin, proibia que qualquer um que não fosse empregado chegasse perto do reservatório. "Um buraco cavado no chão. Grande mistério", rebateu com ironia de si para si. Uma mão carinhosa tocou o ombro do jovem soldado.
Elnor, seu cabelo vermelho, seu rosto redondo e vermelho, seu peito roliço, seus braços de salsicha. Era um filho da guerra, como Gideon, mas ninguém dizia, afinal, nascera como todo o povo de Vindar, com a pele trigueira. "Não vi que você estava aqui", falou o rapaz de modo tímido. "Não quero que você fique bravo comigo. Eu não tive escolha. Era o seu plano, não o meu, lembra?" Bela, a garçonete, passou com uma vasta bandeja com muitos canecos, obrigando o jovem soldado de pé a se aproximar-se do amigo, que permanecia imóvel, olhando para fora, lacônico. "Essa é minha última noite. Erin reservou um aposento para os recrutas, lá em cima, dos bons. Eu gostaria que você subisse e bebesse conosco. Além disso, pode ser que você tenha outra chance. Já eu, vou e volto. Não sou como você. Não quero ir embora".
Gideon levantou-se. Encarou com os olhos de amêndoa a íris pálido-azulada do amigo. Pensara que o corpo do agrimensor saído de Beirada seria seu passaporte para o Exército. Garlic encontrara o anel com sinete vermelho que indicava o cargo e uma carta em pergaminho de couro com as instruções secretas. Garlic se irritou quando viu que o soldado lera o que estava escrito. "Não precisamos saber de tudo", afirmou o homem enorme com rispidez. "Teremos que levar a carta e o anel até Aurora", disse o velho oficial. "E preparar a tropa para receber homens do Exército do Reino". "Eu vou!" O coração de Magro martelava. "Não. Tenho outros planos pra você." A última frase foi pronunciada no mesmo tom de reprimenda que a primeira.
O homem rosado olhou para baixo e viu a mão escura do amigo estendida. Apertou-a. No cumprimento, Elnor parecia ainda mais branco, e Gideon, mais marrom-escuro. Eles se abraçaram brevemente. "Não vou beber com você. Quero que se divirta. Vou estragar tudo." Deram um breve abraço. "Sei que não é sua culpa." Pouco depois, os recruta estava do lado de fora, sufocando a vontade de chorar. A noite de lua clara permitia que reconhecesse, de qualquer lugar da região, a Beirada. O vento frio era agradável. O recruta caminhou com as pernas compridas rumo à pequena fazenda de sua mãe enquanto pensava no corpo morto. "Ferro negro", dissera Garlic em uma fria constatação. O homem morrera da infecção do ferimento orc, da perda de sangue, da fome, da exaustão e da desnutrição. Esteve perdido por muitos dias nas montanhas até encontrar um caminho para a planície.
Queria ter ficado com a ponta da flecha caprichosamente entalhada. Os sulcos formavam padrões e garantiam que o projétil girasse ao ser disparado, e agarrasse e rasgasse a carne em várias direções ao mergulhar sob a pele do inimigo. Para Gideon, aquilo parecia ter saído de outro mundo. Uma tecnologia competente não manufaturada por humanos. Era a uma evidência da existência de outros seres, um tipo diferente de humanidade, talvez. Os contos de infância, as histórias dos velhos e o mundo real se misturavam em seus pensamentos. Se outras espécies podiam pensar e sentir como ele, era como se a própria existência ganhasse contorno. A milenar, distante e esquecida Vindar parecia fina como um tecido puído, que se rasga à menor das agitações. O mundo era um grande fosso, e a vida era a queda. Foi a primeira vez que o jovem percebeu o quanto amava aquele lugar, e isso só agravou seus conflitos internos.
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