O Magro
Gigeon nunca vira um orc, elfo ou anão. Nunca presenciara homem ou mulher que soubesse misturar gestos condimentos e sussurros secretos e provocar efeitos prodigiosos. Nunca deixara Vindar. Nunca sentira o gosto da paixão e do sexo. Portanto, acreditava que os anos plácidos e inocentes passados no ponto mais ao norte do reino não poderiam ser chamados de "vida". Desde muito novo sentia o estranho comichão. Sonhava com os sussurros atraentes da Beirada e com as figuras misteriosas que poderiam cortar o topo da cordilheira. Seres ocultos entre nuvens brancas sobrepostas. Montões transitórios que se pareciam com trapos brancos rasgados e dispostos boiando sobre o leito de um rio.
Imaginava-se, ainda, a seguir caravanas de saltimbancos rumo ao sul, até o Deserto de Gazen, onde dizem que ele deveria ter nascido. "Onde eu deveria ter nascido", repetia em silêncio de si para si a frase que ouvira certa vez. Refletia cheio de dúvidas, no posto de guarda mais avançado, mais a oeste, ao raiar do dia. Graças à tediosa permanência no mesmo lugar em que nascera e que conhecia com a própria alma, Gideon nunca havia reparado o quanto amava aquela terra de milho, cerveja e vento. E graças ao fragor da juventude, também não era capaz de silenciar-se o suficiente para ouvir as batidas desse amor travestido de tola repulsa. Sentia-se condenado por nascer. Por isso, deveria cumprir a sentença de migrar.
Um dia serviria ao Exército do Reino, sob as recomendações de Garlic. Ele não haveria de negar. E então migraria como as estações, como os saltimbancos e como os soldados. Migraria como o pai. Talvez, no desconhecido do mundo o encontrasse. Talvez o reconhecesse. Se ainda estivesse vivo. Era uma promessa de si para si, que só doía ao pensar na mãe. Gideon acreditava que tinha esses sentimentos por ser um filho da guerra. Filhos da guerra eram os mestiços que nasceram dos soldados em campanha. Seus pais eram muitos e suas mães, a maioria das vezes, pobres e solitárias. Os genitores, guerreiros perdidos, cruzaram o reino a espalhar sementes de locais distantes e o sangue sempre vermelho onde quer que fossem, com a desculpa de proteger seu modo de vida, que eram muitos, contra os orcs, que também eram muitos, contavam.
Naqueles tempos da guerra, já era raro encontrar anões sobre a terra, ou elfos aquém do além mar. Mas, Gideon não almejava essas criaturas. Praticamente não acreditava nelas. Como também não acreditava nos deuses ou dragões. Era uma contradição que se conflagrava em seu peito magro cor de bronze que desejava voar para longe. Não percebia que dentro de si, na imaginação, na vontade de desbravar, o mundo vasto que se desenrolava era, na verdade, feito de versões diferentes de Vindar. Era um mundo material, feito do material que sempre conhecera. Não pensava na fome, no frio, nos desmandos e nos capatazes. Como todos os jovens, estava perdido em ilusões, embora um sonho ou outro fosse verdadeiro entre os pilares de orvalho do fim da manhã da vida.
Quando criança, gostava de admirar a Beirada. Brincava que o pai, que nunca vira, o observava do topo invisível das montanhas entre as cortinas brancas rasgadas que flutuavam. Percebeu, então, que cochilara brevemente, quase desequilibrando-se no topo da torre de vigia. Não era comum que acontecesse. Teve a mesma antiga sensação de que o soldado de Gazen que tomara sua mãe o vigiava escondido. Piscou com força os olhos redondos e amendoados. Piscou algumas vezes e afagou o cavanhaque negro e pontudo, salpicado de gotas de orvalho. Logo o sol viria e secaria aquele rosto jovem e fino. Só então percebeu que Garlic estava bem próximo. Era impossível dizer quanto tempo estivera perdido no umbral entre o sonho e a realidade. Se fosse um inimigo, já estaria morto, como ele e o mestre sempre brincavam.
Gostava de Garlic como um pai. E o homenzarrão não conseguia esconder certo orgulho e admiração pelo Magro, como o chamava. O velho guerreiro não gostava de "filho da guerra". Talvez porque fosse ele, também, um dos tantos soldados genitores. Difícil saber. Ele percebeu o desconcerto e o cansaço do pupilo. Cumprimentaram-se e fizeram a curta cerimônia de passagem de guarda. Gideon resistiu a partir imediatamente. Queria aproveitar a companhia. Os dois olharam para o descampado que se estendia a perder de vista, até Beirada. Então, ao mesmo tempo, viram uma figura trôpega que se aproximava ainda distante, quase invisível, tão suja quanto o chão. Ao toque dos olhares, como se houvesse saído do nada e vivesse apenas para ser visto uma única vez por dois desconhecidos, o estranho corpo tombou.
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