O posto avançado

A terra era úmida e os dias, frios e nublados. Mas, depois da partida dos orcs, após a Última Guerra Territorial, era um privilégio servir em Vindar. Garlic aproveitava a diligência de guerreiro e a passividade dos dias compridos daquela sociedade agrária para comtemplar a natureza, tocar sua gaita, armar guarda, treinar recrutas, e descansar. Descansar sempre que podia e uns minutos a mais. A besta e a espada, ao alcance da mão, mas pouco usadas, eram como velhas amizades, dessas que nunca perdem o viço, independente do tempo e da distância do último encontro.

Enfim, era possível ganhar dinheiro, era possível viver os dias e era possível deixar os dias de guerra para trás. O corpanzil imenso do homem, bem acima das ondas verdes do milharal, era sinônimo de segurança para os outros moradores. Os poucos que não gostavam da presença de Garlic, ou guardavam os sentimentos para si, ou não tinham força política para afastá-lo. Com os moradores que se dava ao luxo de conversar nas mesas de madeira repletas de caneca de cerveja no fim do dia, o homem de rosto redondo e talhado de cicatrizes, cabelo grisalho mal raspado, cabeça enfiada no pescoço, com ombros de toras, ria. "Mal sabem que eu já estou afastado".

A Taverna do Fosso era o segundo lugar predileto de Garlic, depois do pequeno forte e antes do casebre mal cuidado que ele hesitava em chamar de lar. A velha estalagem já estava lá muito antes dele chegar, saltando entre gerações, como era comum em Vindar. Mas foi um bom posto de passagem durante a guerra e conservava boas lembranças para soldados esquecidos, e também a mesma cerveja forte, vermelha, tradicional nas terras próximas à Cordilheira da Beirada.

A cadeia de montanhas tinha esse nome por ser a divisa natural entre o chamado mundo dos homens e o Norte Desconhecido, uma porção de terra pequena e misteriosa antes do Gelo. Como uma estranha muralha, ao longe, acima do que deveria ser a linha do horizonte, a fileira de raízes de pedra se erguia sob musgos, árvores e rochas cinzentas até as nuvens. Era, ao mesmo tempo, nostálgica, bela e opressiva. Com elas, era possível lembrar da infância, havia muitas canções sobre seus desafios, abismos e formas. E ao mesmo tempo que exibia-se como um sinal da estática da paisagem imutável da região, era rota de viajantes suspeitos, orcs que ainda se arriscavam nas terras dos homens e outras criaturas em cavernas escuras, outrora ocupadas por saudosos anões.

Os recrutas, como Garlic chamava o pequeno regimento sob seu comando, era um grupo coeso de voluntários e jovens aspirantes ao serviço militar. Graças ao oficial-soldado, eram eficientes com a espada e a besta. Principalmente a besta. Também tentavam cultivar a mesma tranquilidade lacônica do veterano. Mas, novamente graças ao oficial-soldado, tornaram-se displicentes com os postos de vigia. O pequeno gigante tergiversava quando incomodado com a imitação ruim de seus hábitos, e sabia que teria de dar uma solução à indisciplina mais cedo ou mais tarde. Só não sabia, porém, que o momento ideal já havia se passado nas horas lentas e chuvosas da úmida e amadeirada Vindar.


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