Drenda
Drenda sabia que seria punida. Mas não tinha medo. Os rutús não tinham medo da punição, e ela era um rutú. "Um bom rutú", a Avó Maneta dissera. Caminhando pela trilha em meio à escuridão, passando por abismos repentinos e encostas escarpadas, ela caminhava devagar, elegante e silenciosa como um leão da montanha. Sentia o agradável frio da noite nos braços, no rosto e no torço. O vento a secar-lhe o suor da luta. Uma sombra entre as sombras. O arco cruzava-lhe o corpo esguio e magro e a adaga e as flechas de ferro negro penduradas no quadril largo balançavam ao ritmo dos passos. Ao longe, ouviu o rufar ritmado dos tambores de couro reptiliano grosso e ornamentados com ossos. Um sinal audível do lar. Logo ouviria vozes felizes anunciando a volta da patrulha e sentiria o cheiro de carne de gigante. Pensou que levava notícias tempestuosas e lutou para calar o sentimento de fracasso.
Rutús só sentem pesar no fim da guerra. E a guerra não havia sequer começado. Ela ouviu um assobio conhecido. Passou a língua nos caninos inferiores que se projetavam com duas pequenas pontas finas e brancas para fora dos lábios grossos e respondeu imitando a mesma ave. Um terceiro assobio agradeceria o aviso. Ali próximo, outros cinco rutús seguiam por um caminho adjacente rumo ao mesmo vale. Haviam se separado de Drenda na luta, quando dois dos cinco umnos invasores fugiram. O bando estava em uma trilha secreta, perto demais do lar, com comida, equipamentos, armas e mapas. Rutús nunca haviam visto orelhas redondas naquela região antes. Sinal que estavam subindo cada vez mais alto, como alertaram os anciões. Será que queriam tomar os Pilares dos rutús? Depois de enxotá-los das planícies em ataques em ondas sangrentas? Não seria demais? "Nada é demais para os umnos", ela refletiu. Sentiu saudade da Avó Maneta, o seu cheiro de erva e seu aspecto doce de bruxa.
O Lar estava ameaçado. Uma lufada de vento fez mover os cabelos de Drenda, amarrados em muitas tranças. A jovem nascera ali, logo após a fuga dos rutús para os Pilares, acossados pelo Príncipe Branco e o Exército Vermelho. Diziam que agora o Príncipe era rei, e odiava os rutús acima de qualquer outro sentimento que pudesse ter em demasia. Era um fantasma na cultura rutú. Um monstro assustador. Botava medo nos filhotes, fazia calar os mais velhos e jurar vingança os guerreiros. A mãe de Drenda fora prisioneira do algoz. Fugira com a barriga redonda e grande, mas morrera de parto antes de alcançar as trilhas secretas. O choro da recém-nascida atraiu outro grupo de fugitivos. De lá, do alto, o mundo era vasto e perdia-se na vista de seus parentes e amigos quando olhavam para o interminável Sul, e quando admiravam a terrível Beríngia, ao Norte. Em dias de céu aberto, podiam enxergar até as Porteiras de Gelo que levavam ao passado de seu povo. Mas, naquela noite, o céu estrelado aparecia e desaparecia sob a névoa levada pelo vento que carregou as cinzas da Avó Maneta.
Drenda amava as montanhas, as rochas, os abismos, as árvores em forma de cone e os animais que vinham do sul e até os gigantes variados que subiam pelas encostas da Beríngia, lentos e ferozes, prontos para a batalha. Amava as guerras rituais com as outras tribos rutús, mesmo que os combates trouxessem fratricídio e dor. Amava caçar correndo por superfícies inclinadas demais, ou agarrar-se em frestas rumo ao céu em paredões negativos e lisos demais. Amava o estilo de vida dos rutús, onde tudo era de todos, inclusive o sexo vigoroso ou lento a hora que dois ou mais quisessem. Não admitia ir embora e fazia parte dos que queriam usar os velhos túneis dos anões e transformar os Pilares em seu forte eterno. Mas havia medo do que poderia espreitar do coração da montanha.
O rutú encontrou um caminho ascendente. Sabia que estava perto do lar. Percebeu o cessar dos tambores. O grupo chegou primeiro. Lá, já sabiam dos umnos. Estariam apreensivos. Mas não sabiam da fuga de dois deles. Um fora atingido no ombro. Eles partiram por caminhos diferentes. Drenda tergiversou sobre qual perseguir e perdeu ambos depois de ter deixado os amigos para trás. Dois pequenos olhos brilhantes em meio à névoa indicavam o início da descida para o vale. Ela pôde sentir o cheiro da carne sobre a brasa. Proteína, cinza e gordura a fizeram salivar. A nevoa se dissipou pouco antes da jovem alcançar o fim do caminho. A chama da fogueira iluminou seu rosto, sua orelha pontuda, sua pele cinza esverdeada, o olho âmbar-fogo levemente puxado, diferente dos demais, e as pintas negras simétricas que lhe ressaltavam as têmporas. Era menor que a maioria, exceto os filhotes. Mais magra também. Ela sabia que era diferente, mas era tratada como um igual.
O rutú depositou o arco, as flechas e a adaga no chão. "O que os umnos estariam fazendo ali? Porque foram tão longe? Porque subiram tão alto? O que queriam?", questionavam os olhares. Drenda, como alguns ali, era uma filha da adversidade. Os filhos da adversidade, a mais nobre geração das últimas três ou quatro, era uma promissora elite, feita dos filhotes que nasceram sob o flagelo das batalhas e das crianças que sobreviveram aos massacres. Foram criados para resistir. Sobre eles recairia a responsabilidade de cruzar os umbrais do destino, levando consigo os mais novos, que nasceram nos tempos de paz e nada sabiam sobre o morticínio que não fosse as rixas entre tribos. Os nascidos na adversidade foram transformados nos futuros líderes, artífices e guerreiros que aprendiam sobre dever e sacrifício antes de começarem a adivinhar as runas. Era um fardo e uma honra. A bela garota rutú levantou a voz. "Eles fugiram. A responsabilidade é minha". Uma onda de temor espalhou-se pelo acampamento. Ela sentiu a menstruação descer pelo interior da coxa.
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