Na estrada para Vindar
Gideon sentiu a água gelada escorrer pela fronte e, também, pelos cabelos negros, cacheados, revoltos. Era um alívio. Nunca treinara tanto. Algumas gotas escorreram para os lábios e ele as sorveu. Garlic havia arrumado cavalos para o pequeno regimento, pediu à prefeitura corseletes de couro e tentava prepará-los para quem viesse a assumir seu lugar quando os homens do rei chegassem. Eram 20 recrutas, sendo 15 homens e cinco mulheres. Mas Elnor partira rumo à capital com o anel de sinete, a carta e um relato do oficial local com a descrição dos fatos e outro integrante estava doente. Toda a região se agitara com a notícia. Não se esconde a morte de um agrimensor por muito tempo. "A voz do rei fala pelos lábios dos agrimensores", rezava a tradição. Em algum momento, um grupo impressionante de soldados tomaria a região e dissolveria toda e qualquer outra autoridade enquanto permanecessem. Quando partissem, muito teria que ser refeito e as peças no tabuleiro político local estariam às avessas.
Garlic percebia a tormenta no peito de seu pupilo, o único que teria capacidade de assumir seu lugar depois que tudo passasse, se as coisas saíssem como planejava. Ele entendia a mágoa do garoto com a negativa em recomendar-lhe para o Exército do Reino. Não era garoto, era um homem, dizia para si. Mas Gideon era jovem, virgem e nunca havia matado ninguém. Para todos os efeitos, teria dificuldade de se descolar da imagem de garoto. Se Garlic conseguisse, ele entraria para o oficialato do reino, o que era muito melhor que engrossar as hostes obedientes e irracionais de soldados para alguém inteligente. Mas, por enquanto, o melhor era manter silêncio. "Planos revelados não trazem boa sorte." E na incerteza, não queria gerar mais frustrações, pois se preocupava com Magro. Além do mais, seria um bom teste. Que ele aguentasse. Estava aguentando. E melhorando.
Sem piedade, o chefe os obrigava a correr, passar noites acordados, ficar horas imóveis em posições desconfortáveis, nadar com a espada nas mãos, os surrava uma vez após a outra no treino de esgrima e os deixava arrasados no fim de cada dia. Sem trégua. Era preciso deixá-los mais fortes, e estava atrasado. Sabia que era o único culpado, mas não tinha como ser diferente. A sensação de insatisfação, claro, generalizou-se. Só não mancomunavam com os reclames Gigeon e três das mulheres. O primeiro estava magoado, mas por outros motivos. As órfãs Leda, Fara e Helena, por sua vez, nunca tergiversaram ante a adversidade. E os dias de agonia começavam antes do sol nascer e, com curtos intervalos de descanso e pouco espaço para a comida, seguiam até depois do nascer da lua.
Embora sentindo-se traído, o próprio Gideon mal tinha tempo para lamber feridas e alimentar revoltas. Tudo mudou muito rápido depois da partida de Elnor. Mal via a mãe, há muito entregue a uma passividade que ele não compreendia. Mesmo Beirada, que atraía seus olhares nos bons e nos maus momentos, estava encoberta pela sombra daquela misteriosa e intensa preparação. A cadeia de montanhas era a cadeia de provas, a cadeia de provas era a cadeia de esforços e se fosse assim, a cadeia de esforços, talvez, fosse a oportunidade que tinha para convencer Garlic a escrever-lhe uma carta de alistamento no Exército do Reino. Entendeu que passava por uma prova importante quando recebeu a missão de deixar a cidade de madrugada e alcançar uma caravana de saltimbancos. Seu dever era, disfarçado de viajante, descobrir se havia algum espião real entre os artistas.
Gideon sorveu a água gelada que jogara no rosto e nos cabelos revoltos e saiu de casa sob o manto da escuridão da antemanhã. Sentiu o vento gelar as bochechas como pequenas agulhas e despertou ainda mais. Pegou uma estrada alternativa para encontrar os saltimbancos no retorno para Vindar. Alcançou o grupo quando o sol nascia. O cavalo esgarçado. Deparou-se com uma carroça desbotada e triste. Uma mulher dava o seio à um bebê no topo. O cocheiro era um corcunda. Outros dois homens, um muito magro e outro com aparência lúgubre de nobre fugitivo descansavam no interior do veículo, que tinha as portas abertas. As rodas rangiam. O cavalo reduziu a marcha de bom grado, e ele acenou com a cabeça para o trio que estava virado para trás, mas nada disse. Começava a sentir os efeitos do cansaço do dia anterior e da noite mal dormida. Por um instante, o corpo falou mais alto que a mente.
Então, o coração do patrulheiro disparou ao compreender que alguém a cavalo o alcançara antes que pudesse prever. Por reflexo, virou o rosto para o cavaleiro que o surpreendera. Ela sorria. Era uma mulher. Foi impossível não revelar o próprio desconcerto. Ela estava vestida como um dos artistas. Gideon encarava, incrédulo, com a boca entreaberta, aquela pele alva quase reluzente e, entre as madeixas de cobre mal cuidadas e presas com uma faixa listrada de branco e azul, duas orelhas pontudas. Ela sorria desenvolta no controle da situação. "Salve, viajante", cumprimentou-o. Ele não respondeu. Ela gargalhou. Levava um bandolim às costas. "Os corvos comeram tua língua?" "Sa-salve", ele gaguejou tímido. Ela olhou para a espada presa à cela e novamente para o rosto do parvo.
O disfarce estava acabado, mas, de todo modo, era preciso se manter no papel. "Não me olhe assim. Não sou um fantasma. E nem uma elfa", a mulher brincou. O rapaz continuava estupefato. Ela voltou a rir. Era espontânea, melodiosa, faceira. "Meriva, a meia-elfa. Estes são os artistas de minha trupe. Prazer!" Gideon conseguiu, pela primeira vez, ainda em silêncio, voltar o olhar para os outros artistas e novamente para ela. Só então percebeu que a elfa, ou meia-elfa, usava um tapa-olho sobre o olho esquerdo. "Segues para Vindar?" Ele assentiu tentando retomar o controle das emoções. "Trabalhas de soldado por lá?" Ele fez que não, novamente desconsertado. A mentira era mais que óbvia. Ela sorriu de modo impetuoso como se esgrimasse com as expressões. "Tu conheces alguém chamado Garlic, por lá?" Meriva deliciou-se ao ver que, em silêncio, o cavaleiro tudo revelava.
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