Púrpura e limo
Drenda instalou-se ainda confusa na nova morada. Os púrpuras eram os principais inimigos de sua tribo na guerra ritual. Por quê fora banida? E logo para viver entre os púrpuras? Pela primeira vez, ela sentia medo de uma punição. Lembrava-se dos afagos da Avó Maneta. De sua paciência. O que ela pensaria? O que ela diria? Era tão grave assim não ter conseguido capturar os umnos? Ela não sabia que essa era a primeira de uma série de viagens entre os povos rutús dos Pilares. O passado remoto estava perdido nas brumas do esquecimento. A Guerra Existencial fora terrível com os anciãos. Foi o que lhe lembraram antes que ela deixasse o vale no qual sempre viveu desde que foi resgatada recém-nascida pelos fugitivos do Príncipe Branco. Às vezes ela se pegava tentando lembrar dessa pré-história de sua própria vida.
Entre os púrpuras, as fêmeas tinham menor liberdade, embora as proibições não se estendessem à nova moradora. Não havia outro termo para designar um rutú do sexo feminino. Assim como não tinham a palavra criança, embora os termos aparecessem aqui e ali como uma herança cultural do contato com os umnos. Contato ocorrido, principalmente, durante a guerra. A tribo havia crescido, e começava a encontrar algumas dificuldades no Pilar em que viviam. Isso fez a jovem pensar nas portas do destino. Eram três, segundo os novos anciãos. Tempos de crise que espreitavam mesmo quando havia festa, música, dança e rituais para a Lua ou para as montanhas. Preocupações que, por dever sagrado, deveriam ser partilhadas por todos, de todas as tribos, amigos e inimigos.
Se voltassem a crescer em número, novamente o povo das nuvens precisaria pleitear espaço na planície, o que provocaria mais uma Guerra Existencial. Por, outro lado, se controlassem o crescimento das tribos para permanecerem como guardiões das trilhas sagradas dos Pilares e de Beríngia, a terra ao norte da cordilheira, em algum momento não seriam mais capazes de deter o avanço dos gigantes migratórios e desapareceriam. A terceira alternativa, a pior de todas, os umnos decidirem tomar para si os Pilares, investindo em massa em um novo confronto. Os aparecimentos recentes de humanos em pontos considerados secretos, incluindo o acontecimento em que Drenda perdeu os dois prisioneiros dava força a essa hipótese.
Se isso acontecesse, as tribos se uniriam. Conhecedoras da região, poderiam resistir por muito tempo. Mas, espremidos entre a marreta dos umnos e a bigorna dos gigantes, em algum momento, os rutús baixariam a guarda. Ou então, sob cerco, resistiriam até que o último dos guerreiros morresse de ferimento ou inanição. A jovem tornou-se próxima dos filhotes. Nunca questionava seu tamanho em relação aos demais, mas, ali, era uma grande novidade. Principalmente entre os mais novos. As fêmeas queriam que ela comesse. Os machos, que ela procriasse. E com o tempo, as insistências que nunca existiram entre os filhos do limo causaram desconforto e tensão. Até que Ckeren a reivindicou para si e foi preciso lutar.
Aconteceu alguns meses após sua chegada, quando os pedidos e exigências pareciam diminuir, e quando Drenda começava a compreender melhor os púrpuras. Ouvia os mais velhos. Aprendia. Um viajante veria pouca diferença na cultura dos dois grupos rutús. De fato, salvo alguns termos e um quase imperceptível sotaque, a língua era a mesma. Os princípios da guerra tribal eram os mesmos. As lendas também eram as mesmas. Mas, as pequenas diferenças, o lugar das mulheres, o lugar das crianças, as disputas internas, tudo isso era muito diferente para alguém inserido naquele mundo. Era como um indivíduo de Vindar e outro de Gazen, sob um mesmo rei. Para os rutús, seriam apenas umnos. A reivindicação final de um macho naquele bando só podia ser negada com uma vitória em uma disputa de bastões longos.
Imersa no bando, Drenda já vinha treinando com a arma. E era mais rápida que Ckeren. Ele, por outro lado, era grande e forte, e desferia golpes avassaladores. Era preciso se esforçar em dobro para desviar ou barrá-los. A oponente começou a ganhar distância para fazê-lo se mover. Com o espaço maior, ficava mais difícil acertá-la. O próximo passo foi tentar fazer com que o inimigo lhe virasse às costas. Ela perdeu tempo e energia mudando de lado, recuando, mas compreendeu que o ataque mais forte vinha de cima para baixo, na diagonal, e que o candidato girava sobre o próprio eixo para aumentar a velocidade da própria massa.
Com as tranças desfeitas, ofegante, a jovem reduziu o passo e começou a tropeçar, ao mesmo tempo que mantinha o inimigo no centro de um círculo. Mas, alcança-la seria questão de tempo. Os presentes puderam prever a derrota da forasteira. As trocas de prisioneiros das guerras rituais aumentavam a variabilidade genética dos grupos rutús. Ckeren desferiu um golpe lateral pela esquerda. A guerreira barrou com o braço direito por sobre a cabeça, mantendo o bastão no caminho da segunda arma, mas desequilibrou-se para a direita. Ele desferiu um segundo golpe, de cima para baixo. Ela mal teve tempo de proteger a cabeça e desviar o bastão inimigo rumo ao chão, mas, sem base caiu de joelhos. O bastão da jovem também rachou. Um murmúrio de fatalidade percorreu os presentes. O oponente demonstrou concentração, e não se deixou tomar pela emoção. Avançou com o pé direito, em seguida o esquerdo, ganhando velocidade, no próximo passo, brandiu a arma sobre si girando no próprio eixo como se aumentasse o trecho que tinha para correr, e avançou com o movimento final.
Ckeren ouviu o som de um bastão se rompendo e percebeu que os pés não estavam exatamente onde deveriam. O chão e o céu também pareceram se misturar. Estava caindo lentamente. Não acreditou. Sob olhares incrédulos, com uma ponta feita do bastão quebrado, Drenda avançou contra o pescoço do inimigo. A ponta apertou o espaço de carne entre o pescoço e o maxilar, próximo à jugular, sem, no entanto, perfurá-la. Um erro fatal. Era dever da fêmea executar o macho derrotado. Ela não percebera a chegada do ancião no meio da batalha. Ele fez um gesto intolerante com as mãos. Assistira bem mais que os lutadores sabiam. Estavam banidos, ambos.
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