Um golpe de sorte

Gideon sabia que, apesar do fracasso na missão, não era por isso que Garlic o abandonara. Para alguém inteligente, era relativamente simples compreender que Vindar estava fora de lugar. E para alguns, os que nunca saíram dali e que não conheciam outras partes do mundo e suas mudanças, o mundo era Vindar. Ainda assim, era difícil acreditar que o veterano simplesmente fugira no meio da noite. O Exército do Reino promovera uma verdadeira intervenção. Destituiu o prefeito, dissolveu o colégio de conselheiros da comunidade, confiscou a lavoura, os animais, montou um novo regimento com redistribuição de cargos e deu início à construção de um posto avançado, um palacete, um sinal de que que as mudanças tinham vindo para ficar.

Vindar tornara-se mais silenciosa, como um filho obrigado a conviver sob a sombra de um pai injusto e opressor. Mais faminta, também. O único local que permanecera intocado foi a Taverna do Fosso. Mas parte da clientela mudara. Garlic desaparecera com Meriva e o rapaz alto de preto. E aqueles que eram próximos do veterano foram deliberadamente tratados com desprezo e mudados para empregos piores. Gideon não deixou o regimento, mas era responsável pelas latrinas do acampamento. Não treinava e não tinha autorização para pegar na espada.

Sentia saudade da platitude da velha Vindar, um mundo a ser reconquistado, ou lembrado. Um lugar que ele sonhou abandonar e, agora, queria de volta mais que tudo. E não só para si. Alguns até brincavam e falavam em Velha e Nova Vindar. E foi um tempo bom para os trapaceiros e pessoas de índole ruim, muito bem recebidos pela estrutura militar. Elnor nunca retornara, e ninguém falava dele. A existência tornou-se ainda mais excruciante quando Gideon viveu a dor da perda de sua mãe. A mulher de cabelos cinzentos e compridos tornara-se mais e mais calada até o final. E o fato de ter levado para o túmulo o segredo da identidade do pai de seu filho acentuou a profundidade de um abismo que, então, veio a se tornar intransponível.

O soldado mal teve tempo de enterrá-la. Os baldes de merda e mijo o esperavam. Junto com as risadas, chacotas e humilhações. A velha vontade de ir embora se transformou ante as novas e terríveis perspectivas. O jovem sentia-se no dever de resgatar o velho mundo do monstro de metal que se instalara ali. Ficar era um dever contra a guarda. Cada vez mais, odiava a carreira militar que tanto desejara. E com o passar de semanas e meses, Gideon já não era mais o mesmo. Criou, com outros moradores que nunca imaginara encontrar e se amarrar em tal situação, a Irmandade da Velha Vindar, que trabalhava para redistribuir, de forma clandestina, a comida confiscada pelos militares. Roubo, formação de bando, conspiração, tráfico e traição.

Funcionou por um tempo. Mas então, três membros foram capturados. os militares enforcaram dois. A terceira, uma garota, desapareceu. Dois dias se passaram sem que os outros irmãos se vissem ou se falassem, mas havia algo estranho no ar: uma atmosfera ameaçadora, como se feras se escondessem sob o solo prontas para abocanhar desavisados. O jovem soldado percebeu que seria capturado quando teve um dia tranquilo no trabalho. "Eles já sabem. E estão de olho em mim." Voltou para casa no fim da tarde, lavou-se, vestiu as roupas da guarda de Garlic, a capa amarela, a camisa grossa verde, a calça preta, as botas, e preparou a espada.

Aguardou paciente nas sombras até que os homens cercassem a casa no meio da noite. Podia ouvi-los caminhar no mato do lado de fora. O coração disparado e a respiração ofegante contrastavam com o olhar compenetrado do jovem. Estava pronto para morrer, embora quisesse viver. Três batidas foram suficientes para que a porta viesse abaixo. Antes disso ele havia erguido a espada acima da cabeça. Um homem alto com uma espada bastarda adentrou seguido por dois que levavam bestas e um quarto armado com punhais pelo apertado corredor da entrada. Era uma construção circular, de pedra, com palha como cobertura e cômodos caóticos divididos por paredes de madeira e uma lareira. "Tem certeza que ele não foi embora", sussurrou o segundo da fila.

A lâmina de Gideon desceu como um raio de lua e decepou-lhe o braço direito. O átimo de segundo entre o corte e o grito pareceu uma eternidade. Nesse espaço vazio em que o sangue jorrava negro como a noite, o jovem chutou o segundo besteiro no chão. A seta voou passando perto do ouvido do guerreiro e desaparecendo entre as palhas no teto. O líder do bando voltou-se para trás a tempo de rebater o golpe inimigo e desequilibrá-lo em um experiente jogo de corpo. Enquanto o segundo besteiro levantava, o homem com os punhais avançou contra as costas de sua vítima, mas acabou interrompido pelo som de um bandolim e uma explosão de faíscas.

Gideon recuperou o equilíbrio. Estava cego pela explosão, como os outros, mas conhecia o recinto, e foi sua vez de desequilibrar o oponente. O homem era mais forte que ele previra, mas o erro não foi o suficiente para colocá-lo em larga desvantagem. Ainda assim, a luta tornou-se complexa muito mais rápido que alguém inexperiente poderia prever. Eram três contra um e, no próprio caos, o guerreiro se perdeu entre cômodos e caiu (ou foi arremessado) sobre uma parede de madeira derrubando-a sobre o quarto da mãe. Tinha contado quatro homens, neutralizado permanentemente um deles, mas havia mais alguém que esquecera de calcular, agora que enxergava novamente as silhuetas. Entre os escombros, tateou em busca da espada e então percebeu que o bando parecia lutar entre si.

O besteiro foi trespassado com velocidade. A ponta da espada do outro lado de seu corpo e o grito sufocado pelo sangue no estômago e pulmão. O mesmo aconteceu com o homem dos punhais, atingido pelas costas por mais alguém que acabava de chegar. O homem que derrubara Gideon agora batalhava com um inimigo ainda maior, que arrancou sua cabeça com agilidade e desprezo. O jovem conhecia aqueles ombros, conhecia aqueles movimentos, aquela graça, conhecia como um garoto que reconhece o herói que é o próprio pai. E livre de inimigos, as mãos fortes o ajudaram levantar-se com firme ternura. Uma silhueta esbelta com um bandolim às costas aproximou-se em seguida. Era bom estar acompanhado.

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