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Um golpe de sorte

Gideon sabia que, apesar do fracasso na missão, não era por isso que Garlic o abandonara. Para alguém inteligente, era relativamente simples compreender que Vindar estava fora de lugar. E para alguns, os que nunca saíram dali e que não conheciam outras partes do mundo e suas mudanças, o mundo era Vindar. Ainda assim, era difícil acreditar que o veterano simplesmente fugira no meio da noite. O Exército do Reino promovera uma verdadeira intervenção. Destituiu o prefeito, dissolveu o colégio de conselheiros da comunidade, confiscou a lavoura, os animais, montou um novo regimento com redistribuição de cargos e deu início à construção de um posto avançado, um palacete, um sinal de que que as mudanças tinham vindo para ficar. Vindar tornara-se mais silenciosa, como um filho obrigado a conviver sob a sombra de um pai injusto e opressor. Mais faminta, também. O único local que permanecera intocado foi a Taverna do Fosso. Mas parte da clientela mudara. Garlic desaparecera com Meriva e o rapaz a...

Púrpura e limo

Drenda instalou-se ainda confusa na nova morada. Os púrpuras eram os principais inimigos de sua tribo na guerra ritual. Por quê fora banida? E logo para viver entre os púrpuras? Pela primeira vez, ela sentia medo de uma punição. Lembrava-se dos afagos da Avó Maneta. De sua paciência. O que ela pensaria? O que ela diria? Era tão grave assim não ter conseguido capturar os umnos? Ela não sabia que essa era a primeira de uma série de viagens entre os povos rutús dos Pilares. O passado remoto estava perdido nas brumas do esquecimento. A Guerra Existencial fora terrível com os anciãos. Foi o que lhe lembraram antes que ela deixasse o vale no qual sempre viveu desde que foi resgatada recém-nascida pelos fugitivos do Príncipe Branco. Às vezes ela se pegava tentando lembrar dessa pré-história de sua própria vida. Entre os púrpuras, as fêmeas tinham menor liberdade, embora as proibições não se estendessem à nova moradora. Não havia outro termo para designar um rutú do sexo feminino. Assim como n...

Na estrada para Vindar

Gideon sentiu a água gelada escorrer pela fronte e, também, pelos cabelos negros, cacheados, revoltos. Era um alívio. Nunca treinara tanto. Algumas gotas escorreram para os lábios e ele as sorveu. Garlic havia arrumado cavalos para o pequeno regimento, pediu à prefeitura corseletes de couro e tentava prepará-los para quem viesse a assumir seu lugar quando os homens do rei chegassem. Eram 20 recrutas, sendo 15 homens e cinco mulheres. Mas Elnor partira rumo à capital com o anel de sinete, a carta e um relato do oficial local com a descrição dos fatos e outro integrante estava doente. Toda a região se agitara com a notícia. Não se esconde a morte de um agrimensor por muito tempo. "A voz do rei fala pelos lábios dos agrimensores", rezava a tradição. Em algum momento, um grupo impressionante de soldados tomaria a região e dissolveria toda e qualquer outra autoridade enquanto permanecessem. Quando partissem, muito teria que ser refeito e as peças no tabuleiro político local estari...

O Fosso

 A Taverna do Fosso era um palacete no centro de Vindar. A região contava, também com um galpão, usado para reuniões, a prefeitura e um pequeno templo fechado há décadas. A região servia de apoio para os agrimensores do rei. Curvado sobre a mesa, Gideon saboreava um caneco da cerveja vermelha. Na posição em que estava, via, em uma linha reta entre mesas, cadeiras, clientes e pilastras, a porta dos fundos. E, do lado de fora, a borda do poço que batizava o estabelecimento. O banjo de Tom tocava nas proximidades. Era a água, diziam. A água garantia o sabor da cerveja e da comida. "Água não tem gosto", rebatia Gideon com seus demônios interiores. Os poucos empregados entravam e saíam de tempos em tempos, atarefados. De qualquer forma, o dono, Erin, proibia que qualquer um que não fosse empregado chegasse perto do reservatório. "Um buraco cavado no chão. Grande mistério", rebateu com ironia de si para si. Uma mão carinhosa tocou o ombro do jovem soldado. Elnor, seu cabe...

Drenda

Drenda sabia que seria punida. Mas não tinha medo. Os rutús não tinham medo da punição, e ela era um rutú. "Um bom rutú", a Avó Maneta dissera. Caminhando pela trilha em meio à escuridão, passando por abismos repentinos e encostas escarpadas, ela caminhava devagar, elegante e silenciosa como um leão da montanha. Sentia o agradável frio da noite nos braços, no rosto e no torço. O vento a secar-lhe o suor da luta. Uma sombra entre as sombras. O arco cruzava-lhe o corpo esguio e magro e a adaga e as flechas de ferro negro penduradas no quadril largo balançavam ao ritmo dos passos. Ao longe, ouviu o rufar ritmado dos tambores de couro reptiliano grosso e ornamentados com ossos. Um sinal audível do lar. Logo ouviria vozes felizes anunciando a volta da patrulha e sentiria o cheiro de carne de gigante. Pensou que levava notícias tempestuosas e lutou para calar o sentimento de fracasso. Rutús só sentem pesar no fim da guerra. E a guerra não havia sequer começado. Ela ouviu um assobio...

O Magro

Gigeon nunca vira um orc, elfo ou anão. Nunca presenciara homem ou mulher que soubesse misturar gestos condimentos e sussurros secretos e provocar efeitos prodigiosos. Nunca deixara Vindar. Nunca sentira o gosto da paixão e do sexo. Portanto, acreditava que os anos plácidos e inocentes passados no ponto mais ao norte do reino não poderiam ser chamados de "vida". Desde muito novo sentia o estranho comichão. Sonhava com os sussurros atraentes da Beirada e com as figuras misteriosas que poderiam cortar o topo da cordilheira. Seres ocultos entre nuvens brancas sobrepostas. Montões transitórios que se pareciam com trapos brancos rasgados e dispostos boiando sobre o leito de um rio. Imaginava-se, ainda, a seguir caravanas de saltimbancos rumo ao sul, até o Deserto de Gazen, onde dizem que ele deveria ter nascido. "Onde eu deveria ter nascido", repetia em silêncio de si para si a frase que ouvira certa vez. Refletia cheio de dúvidas, no posto de guarda mais avançado, mais ...

O posto avançado

A terra era úmida e os dias, frios e nublados. Mas, depois da partida dos orcs, após a Última Guerra Territorial, era um privilégio servir em Vindar. Garlic aproveitava a diligência de guerreiro e a passividade dos dias compridos daquela sociedade agrária para comtemplar a natureza, tocar sua gaita, armar guarda, treinar recrutas, e descansar. Descansar sempre que podia e uns minutos a mais. A besta e a espada, ao alcance da mão, mas pouco usadas, eram como velhas amizades, dessas que nunca perdem o viço, independente do tempo e da distância do último encontro. Enfim, era possível ganhar dinheiro, era possível viver os dias e era possível deixar os dias de guerra para trás. O corpanzil imenso do homem, bem acima das ondas verdes do milharal, era sinônimo de segurança para os outros moradores. Os poucos que não gostavam da presença de Garlic, ou guardavam os sentimentos para si, ou não tinham força política para afastá-lo. Com os moradores que se dava ao luxo de conversar nas mesas de m...